Assembleia Geral da APA. Outra vez? Sim, outra vez.

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Desde já aqui confesso que estou a perder a energia para escrever sobre a APA. Mas vou contrariar essa falta de energia para escrever outra vez: faz falta aos arqueólogos e à actividade arqueológica em Portugal uma associação como a APA.

Não vale a pena perder muito tempo a analisar o que correu bem e mal nos últimos tempos porque o que interessa é perceber que se chegou a um nó górdio. Que é preciso desatar.

Na última Assembleia Geral (AG) foram aprovadas duas medidas que procuravam alargar a base eleitoral da APA: um programa excepcional de regularização de quotas para associados com 3 ou mais anos de pagamentos em atraso e uma campanha de angariação de novos associados com isenção de jóia e redução da primeira quota.

A intenção era boa, penitencio-me pela eventual falta de clareza de uma das propostas, mas não resultou. A direcção em funções assumiu uma leitura restritiva do programa de regularização de quotas e não divulgou, para além de um comunicado na página da APA, a campanha de angariação de novos associados. A consequência foi uma série de mal entendidos e voltámos à situação em que estávamos em final de Março: o universo eleitoral da APA é constituído por pouco mais associados do que o número suficiente para constituir uma lista para os corpos gerentes e comissão disciplinar.

Manter os prazos para realização de eleições nestas condições não parece prudente. É urgente clarificar os prazos e o âmbito da aplicação das medidas aprovadas na última AG para que se cumpra o seu principal objectivo: alargar a base eleitoral da APA. A juntar a isto, houve um grupo de associados que pediu a realização de uma AG extraordinária e alguns membros da direcção em funções expressaram a sua vontade de renunciar aos cargos para que foram eleitos.

Por isso vamos, outra vez, realizar uma AG. A ordem de trabalhos está no site da APA mas resume-se de uma forma simples: vamos tentar desatar este nó górdio.

Porque em tempos difíceis no exercício da nossa profissão (alguém ainda tem dúvidas?) o que nos pode valer são as associações. Porque somos nós que as fazemos e nós que as escolhemos. São estruturas democráticas e representativas, tanto mais democráticas e representativas quanto mais nelas nos empenhamos. Se todos os arqueólogos que exercem a profissão em Portugal forem associados, todos podem estar representados.

Todos podem ter voz. O jovem profissional em situação precária empurrado para condições laborais menos dignas, o empresário a braços com legislação desajustada e um mercado desregulado, o funcionário da administração central ou local a lidar com uma tutela que oscila entre o ausente e o esquizofrénico, o investigador ou professor entalado entre as normas “do palácio da Ajuda” (já nem vale a pena fixar siglas) e as da FCT e do MEC. E todos os outros que me vão certamente desculpar por me estar a esquecer deles.

Se todos forem associados, cada um vale um voto na AG da APA.

Cada um pode juntar-se com outros e constituir uma lista para os corpos gerentes e comissão disciplinar. Cada um pode propor novos rumos e novos projectos para a associação que o representa. E – a democracia tem esta coisa extraordinária – cada um pode, se não concordar com o caminho que está a ser seguido pelos representantes eleitos, dize-lo em sede própria, propor alternativas, exigir o cumprimento de programas eleitorais e propostas e, no limite, fazer cair os corpos gerentes eleitos e iniciar um novo ciclo na vida da APA.

Mas para isso é preciso haver associados. Mais associados. Ir a Conimbriga no próximo dia 22 é contribuir para que isso possa acontecer e para que a APA volte a ser a voz de todos os que querem ter voz no exercício da profissão de arqueólogo em Portugal.

Encontramo-nos lá?

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por Maria José de Almeida

Para que quero a APA

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O título é a pergunta que o António Valera me faz em comentário à minha última entrada no blogue. Respondo em nova entrada, com um convite aos restantes autores/leitores para fazerem o mesmo.

Eu quero a APA para credibilizar a profissão e valorizar o trabalho daqueles que a exercem em Portugal.

Demasiado vago…? Vamos lá então concretizar…

Para dentro:

Quero a APA para definir guias de boas práticas em várias áreas do exercício profissional que complementem o código deontológico e que se assumam como uma plataforma mínima de qualidade, abaixo da qual os associados se recusam a prestar serviços;

Quero a APA para fazer formação profissional credível e avaliar o percurso dos associados para além do momento da inscrição, definindo em conformidade patamares de funções recomendadas e responsabilidades no âmbito das equipas de trabalho;

Quero a APA para acreditar e certificar entidades colectivas que desenvolvem trabalho arqueológico (e não estou a falar de só de empresas, mas de associações de defesa do património, centros de investigação, autarquias ou fundações) em função da observância do código deontológico e dos guias de boas práticas;

Quero a APA para assegurar um programa de estágios remunerados nas entidades acreditadas que permitam a inserção dos jovens arqueólogos no mercado de trabalho;

Quero a APA para defender os interesses individuais e colectivos dos associados nos vários âmbitos em que exercem a sua profissão, nomeadamente através de apoio jurídico-legal e na representação junto da tutela;

Quero a APA para negociar parcerias e protocolos com outras entidades que resultem em benefícios para os associados no âmbito do exercício profissional.

Para fora:

Quero a APA na primeira linha da divulgação do trabalho de qualidade que se faz no património arqueológico português e na produção de conhecimento histórico, para mostrar à comunidade as vantagens de o fazer com qualidade;

Quero a APA nas escolas do ensino básico e secundário para realizar programas coerentes de educação patrimonial;

Quero a APA junto de outras associações representativas de profissionais que connosco trabalhem para promover acções de divulgação e esclarecimento sobre o exercício qualificado da nossa profissão;

Quero a APA com os promotores de obras públicas e privadas para fazer o mesmo;

Quero a APA com os agentes económicos para realizar acções que permitam compreender o valor da actividade arqueológica de qualidade no mercado da cultura;

Quero a APA nos media e nas redes sociais para lembrar, de uma forma insistente, que vale a pena valorizar o trabalho de qualidade dos arqueólogos na construção da identidade e memória colectiva, fundada no património arqueológico português.

E se calhar também para outras coisas que agora me estão a falhar. (e a ordem de factores é arbitrária, não refelecte uma hierarquia de importância)

Mas(?) só posso por isto na primeira pessoa. Não há, nem pode haver, nenhum projecto eleitoral para a APA antes de 29 de Maio (fim do prazo para a apreciação das reclamações ao caderno eleitoral). Não sabemos com quem contamos.

Até 7 de Maio tem que haver um acto de fé: vou regularizar a minha situação de pagamento de quotas, vou-me inscrever, porque preciso de uma associação profissional que me represente, independentemente de quem me pode vir a representar. Sabendo que, se for eleitor, posso integrar uma lista, posso votar – e até em branco se não me revir em nenhuma das que se apresentam –, posso participar em próximas AGs para exigir aos corpos gerentes que cumpram o programa com que foram eleitos se não o estiverem a fazer, posso – no limite – fundamentar e solicitar a perda de mandato de quem não está a servir os interesses da associação e dos associados.

Mas, para isso, é preciso que haja massa crítica na APA. Porque se, no dia da divulgação definitiva do caderno eleitoral, eu descobrir que afinal somos outra vez à volta de 20, a minha resposta à pergunta do António Valera é muito simples: eu não quero a APA para nada.

ICOM _ Declaração de Lisboa

Aproveito este renovado espaço para dar conhecimento da chamada “Declaração de Lisboa”, que foi divulgada este fim-de-semana, no final da Conferência “Public Policies toward Museums in Times of Crisis”.

Luís Raposo

Aqui vai:

Appeal to the European Parliament and Commission,

to the Parliaments and Governments of European Countries

and to Regional and Local Governments

 

Support Culture and Museums

to Face the Global Crisis and Build the Future

 

ICOM, the International Council of Museums, is the international organisation of museums and museum professionals, with 30,000 members from 137 countries.  On behalf of hundreds of thousands of professionals and volunteers currently working in museums in our countries, the Chairs of ICOM European National Committees signed below, with the close support of the Chair of ICOM Europe and the President of ICOM, are meeting in Lisbon on April 5th and 6th, 2013 for the international conference on Public Policies toward Museums in Times of Crisis appeal to European, national, regional and local Parliaments and Governments to support culture and museums in these times of crisis.

We would like to point out that in many countries of Europe and European Union the economic crisis is producing dramatic effects upon cultural activities and museums.  Museums are unique resources that not only produce knowledge and education, but also contribute significantly to economic and social development.  This appeal presents to Parliaments and Governments three action priorities  for addressing the crisis and ten proposals for the sustainable management of museums and cultural heritage.

  1. 1.      Global economic crisis is producing dramatic effects upon cultural activities and museums

In many European countries, the economic crisis has generated a drastic decrease in public and private financial support to culture and museums. Blind automatic financial cuts do not distinguish between ephemeral initiatives and permanent institutions.

These drastic cuts are endangering the existence of many museums and their collections, and threatening the working conditions of professionals, particularly younger ones. Colleagues are losing their jobs and young professionals are underpaid, have only short-term precarious contracts or cannot find suitable employment. With great concern, we have already seen museums having to reduce opening hours and activities or even being forced to close because of lack of resources. Others are now losing their directors and technical teams. Policy makers need to recognise that museums are long-term, intergenerational institutions where research, conservation and dissemination of knowledge are closely entwined. None of these functions should be neglected.

In times of crisis culture, museums and heritage are often considered a luxury that society can little afford, whereas in reality they are assets of sustainable growth. It is our strong belief that at such critical moments we must change our traditional opinions not only about finance and economy, but also about society and ways of living.

  1. 2.      Cultural activities and museums are unique resources  for the development of economy and society

Culture and museums are important investments for a better society, not liabilities to be cut down in times of crisis. Our national and European identities rest on a common cultural heritage which is not a mere memory of the past, but a capital asset in  understanding the present and planning the future.

Culture, heritage and museums in particular drive economic and social growth as well as innovation and community cohesion.  Even in countries facing serious economic problems museums and heritage should be financed so that they can continue to contribute to social cohesion and development.  Unfortunately, in some countries the percentage of Gross National Product invested in culture, museums and heritage is lower than in other countries of the Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD).  We believe that governments should modify this trend and resources available for culture should be spent primarily on activities of permanent cultural institutions.

  1. 3.      The economic crisis and the new role of museums

In the last few years museums in our countries have changed dramatically and many now have larger social and territorial responsibilities.

The preservation and safeguarding of tangible and intangible cultural heritage is considered the most relevant function of museums and should not be neglected.  However, contemporary museums have wider goals. They offer public services and social activities, as well as culture and knowledge. They serve new audiences, use new languages and new media. Innovative museums foster public awareness, promote understanding of heritage and offer educational services. They strengthen cultural identities, support social cohesion and develop intercultural mediation – activities which are fundamental in times of crisis.

Museums produce public values and improve regional assets in a global world. They provide facilities and resources for local, regional and national communities. They generate not only knowledge and education, but also income and employment.  Museums and monuments are among the most appealing factors for the tourism industry, a vital economic sector in all our countries.  Investing in museums, their activities and their professionals is the best way to develop and improve the quality of cultural tourism.

  1. 4.      Three priorities and ten objectives to face the crisis and promote the values of museums and heritage

First priority

Museums and cultural heritage are positive engines of development rather than sources of expenditure.  This is especially true in times of crisis when long-term strategic issues have to stand up against short-term proposals. National, regional and local governments should recognise this and act accordingly. There is no sustainable growth without cultural development. Territories need cultural infrastructure in addition to highways, high-speed railways, airports and telecommunication services.  To promote regional growth and international exchanges, and to improve the quality of citizens’ lives, we need cultural heritage, museums, libraries, archives, performing arts, theatres, concert halls and exhibition centres.

We are asking our governments to

  1. Fulfil their public obligations toward heritage and museums and preserve our cultural legacy for future generations.
    1. Increase the percentage of Gross National Product assigned to cultural activities, museums and heritage, in particular when it is below the European average, in order to attain European standards.
    2. Increase, or at least maintain (in countries where the level of investments is clearly above the European average), the resources for museums as permanent cultural institutions so that they can effectively fulfil their social roles and offer a greater number of activities to support their communities and local development.

Second priority

Governments and communities should protect and promote human resources of museums.  Many museums are suffering from a severe reduction, or even the loss of scientific and technical expertise. Without scientific, administrative and management personnel, museums cannot contribute effectively to the life and growth of society and some are at serious risk.

We are asking our governments to

  1. Support necessary generational turnover in the personnel of museums
  1. Preserve and promote museum professional competences, both in public and in private institutions, and ensure that museum positions are filled by qualified personnel
    1. Promote the training of museum personnel and ensure the achievement of high quality professional standards
    2. Implement programmes for the employment of competent young professionals in museums, including the introduction of fiscal benefits.

 

Third priority

Governments and communities should promote citizens’ participation in museum activities on a voluntary basis and encourage synergy between public and private organisations and partnerships in order to guarantee the sustainable management of museums and heritage. Governments should encourage synergies between school programs and museums activities.

We are asking our governments to

  1. Promote cooperation in museum and cultural activities among  institutions,  public and private bodies, professionals and volunteers
  2. Sustain cultural networks on a regional, national and European level
  3. Encourage donations and activities in favour of museums and cultural heritage by means of tax relief.

Lisbon, 6 April 2013

Wim de Vos, Chair of ICOM Belgium

Lidija Nikocevic, Chair of ICOM Croatia

Teti Hadjinicolaou, Chair of ICOM Greece

Alberto Garlandini, Chair of  ICOM Italy

Luís Raposo, Chair of ICOM Portugal

Sofía Rodríguez Bernis, Chair of ICOM Spain

Hans-Martin Hinz, ICOM President

Damodar Frlan, ICOM Europe President

por Luís Raposo Com as etiquetas

APA para que te quero

democracia_2013fonte:http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/6547/zorg-borges-fevereiro

A actual crise da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) é a crise da democracia portuguesa à escala da nossa profissão.

Se os cidadãos não se reveem nos partidos, se os arqueólogos não se reveem nas direcções da APA, não será de perguntar: e porque é que se demitiram de participar? Porque é que se foram embora? Porque é que ninguém se chega à frente?

É fácil protestar e o mundo das redes sociais é fantástico: a indignação nem precisa de levantar o rabo da cadeira ou do sofá (versão pc ou tablet). Mas às vezes também é giro ir para a rua, agitar coelhos mortos, cartazes criativos e depois divulgar as fotos no facebook. Ouvi eu, com estes que a terra há de comer se não os doar à ciência, num protesto de rua: “eh pá eu gostava era de ter nascido antes do 25 de Abril, nessa época é que as cenas da resistência eram fixes.”

Não, não era fixe. Não era fixe viver sem democracia.

Eu nunca vivi sem democracia (os primeiros 4 anos não contam) mas fui educada por quem viveu em ditadura tempo demais. Ensinaram-me desde pequenina que era importante poder e saber escolher. Que não vale a pena escolher sem consciência das razões e consequências da escolha. O livre arbítrio é uma coisa extraordinária. É tão extraordinária que dá para correr bem e para correr mal. Ao contrário da impossibilidade de escolha: invariavelmente corre mal.

No próximo dia 6 de Julho há eleições para os corpos gerentes da APA. Se a situação se mantiver como estava na última Assembleia Geral (AG), não vamos poder escolher.

Recordo que na última AG havia 18 associados efectivos em pleno gozo dos seus direitos. E que os corpos gerentes são constituídos por 13 pessoas e a comissão disciplinar por mais 3. Do ponto de vista aritmético, para não falar em outros, isto mata qualquer possibilidade de escolha.

A única maneira de devolver a capacidade de escolha para a nossa representação profissional é voltar a povoar a APA. Não é tarefa fácil porque, honestamente, não há nenhuma recompensa imediata pelo esforço que implica voltar a participar ou querer associar-se pela primeira vez.

Acredito contudo que, nestas coisas de associativismo (ou civismo, se preferirem), o que nos deve mover não é a consequência imediata. É mesmo o bem comum. E isso não é nenhuma excentricidade mística ou religiosa, é simplesmente uma questão pragmática. Se nos organizarmos em torno da defesa de interesses comuns há mais hipóteses de, individualmente, a vida nos correr bem.

A vida da maior parte dos arqueólogos que exerce a actividade em Portugal já corre mal. Ainda vai correr pior. Vai haver (ainda) menos trabalho, (ainda) menos investimento público (privado nunca houve), (ainda) mais conflitos pessoais e institucionais. Podemos aceitar tudo isto como inevitável ou podemos tentar fazer alguma coisa para que venham melhores dias. Mobilizarmo-nos em torno da nossa associação profissional pode ser uma delas.

Pode não dar em nada? Pode, sim senhor. Mas, sabem uma coisa extraordinária?, pode correr bem. Em contrapartida, se deixarmos tudo como está, não há alternativa: vai (continuar a) correr mal.

Notas pessoais sobre o CPAE

Por força das circunstâncias estive “preso” ao Auditório 3, pelo que pouco ou nada posso dizer sobre o que se passou nos Workshop. São as contingências de ter sessões em simultâneo, mas isso é o que vai acontecendo por todo o lado, face ao aumento do número de participantes e propostas de comunicação. Qualquer fórum que ambicione congregar um número relevante de participações e discutir temáticas variadas terá que enveredar por esta solução. Como em muitas outras ocasiões na vida, somos obrigados a optar. Mas isso não é um mal, apenas uma responsabilização.
Assim, apenas poderei emitir opinião sobre a percepção que desenvolvi sobre o Congresso em geral e sobre o que se passou no Auditório 3 em particular.

Em termos gerais devo dizer que o Congresso cumpriu. Poderia ter-se atingido um nível um pouco mais alto, mas, mais que uma crítica, esta observação deve ser entendida o sublinhar da existência de margem de progressão.
Antes de tudo mais cabe sublinhar o facto de que foi possível, com consequência prática, reunir empresas concorrentes em torno de projectos de interesse comum e geral. Neste sentido, e face ao historial da arqueologia portuguesa, esta conquista não é de desprezar.
Segue-se o facto de o Congresso traduzir uma dupla atitude: primeiro, afirmação de que há, apesar de tudo, qualidade na arqueologia realizada em contexto empresarial; segundo que existe uma atitude de auto reflexão e de auto crítica nesse meio, atitude que, infelizmente, não é generalizada.

Quando a observações mais concretas, diria (como já foi comentado por outros) que se repetiram diagnósticos há muito estabelecidos, faltando a indicação de caminhos e de soluções para resolver o que já todos percebemos estar mal. Poderia mesmo dizer que 2008 foi um ano (e continua a ser) muito profícuo em “reuniões de diagnóstico”, sendo a capacidade de arqueólogos e instituições que os enquadram para actuar na resolução dos problemas inventariados inversamente proporcional à sua capacidade de diagnosticar. Esta afirmação, já tantas vezes repetida, não deixa de ser mais uma demonstração dessa mesma evidência. Um mal nacional, que se traduz numa tradicional e generalizada atrofia para a acção, a qual foi várias vezes exposta com incomparável beleza por Pessoa. A título de exemplo:
“Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, criar coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer.” (Bernardo Soares, O Livro do Desassossego)

Mas também aqui, o CPAE, pelo simples facto de ter sido concretizado, parece querer inovar.
Quanto ao que se passou no Auditório 3, gostaria de salientar o brilhantismo da conferência de Criado Boado. Concorde-se ou não com a mensagem, esteve ali o que deve ser um arqueólogo: inteligente; com capacidade crítica para perceber as redes complexas que contextualizam qualquer problema; com opção por um caminho estruturado e claro, sustentado por uma percepção educada da actual sociologia que envolve a ciência, as suas disciplinas em geral e a arqueológica em particular.
Do que foi o conjunto da sua mensagem gostaria de sublinhar a ideia que vincula a administração a não abandonar o “bebé”: se de facto foi através da legislação que se gerou uma “inovação social” (uma área de actividade económica, social, cultural e política), um “sector” anteriormente inexistente, então a administração não pode apenas assumir que se responsabiliza pelo património. Terá também que perceber que tem impacto (e responsabilidade) em tudo aquilo que gira à volta dele. Não de uma forma dirigista e paternalista, mas de uma forma “fomentadora” e “reguladora”. Não há património sem um “sector” do património, que deveria ser ajudado a crescer na sua diversidade institucional.

Quanto ao resto, e porque a “conversa já vai longa”, diria que houve coisas boas e outras menos boas. Mas a avaliação não pode ser feita apenas relativamente às necessidades do presente e ao que possamos ambicionar de melhor no futuro. Há que olhar para trás. E quando temos esse olhar, então fica óbvio que este Congresso foi revelador do que se conseguiu em apenas 10 anos. Assim haja ideias e capacidade para as por em prática. Empreendorismo, portanto. Mas cuidado, noutros 10 anos (ou menos) as coisas podem regredir. Como diz um anúncio actual numa das televisões, o erro da humanidade é pensar que males passados não se podem repetir. Tudo, depois de conquistado, necessita de manutenção (e não apenas os sítios arqueológicos). O CPAE é uma dessas conquistas merecedoras de manutenção. Não tanto pelo que já fez, mas sobretudo pelo que ainda pode fazer. Quanto às “bocas” que vão aparecendo, sugiro que se releia o que escrevi sobre a intervenção de Criado Boado.

António Valera

Ainda o 1º CPAE

Após um longo silêncio — tenho de facto dificuldade em adaptar-me a esta nova forma de comunicação — a participação no I Congresso de Arqueologia Empresarial parece ter estimulado este retorno ao ciber espaço. Talvez seja da influência da “juventude” ali dominante, primeira distinção do encontro relativamente a muitos outros…
Alguns comentários e impressões avulsas:

— quer queiramos ou não, existem já várias “arqueologias” no país e na Gulbenkian, praticamente, estava apenas uma dessas “arqueologias”, a mais nova. Das outras, e para além dos convidados institucionais, daqueles que se inscreveram…, quantos marcaram presença? É certo que há muitos colóquios nesta altura do ano (no próximo fim de semana é já o do SW, em Aracena…) mas isso não deve explicar tudo;

— por outro lado, e apesar das dificuldades, da concorrência desleal, da fragmentação do mercado e dos projectos, há muito trabalho de campo feito com grande rigor técnico e profissionalismo. Faltam-nos é certo elementos de comparação para podermos ter uma visão mais correcta do que vale na globalidade o que se vai fazendo em arqueologia preventiva por esse país fora, mas a amostragem é impressionante;

— para além do trabalho de campo, é obrigatório constatar que há um efectivo esforço de processamento científico dos novos dados obtidos, alguns dos quais vêm revolucionar completamente as concepções durante décadas dominantes;

Naturalmente, haverá algumas notas menos positivas:

— o mercado empresarial é bastante mais vasto do que as 5 empresas organizadoras. Embora tenha reconhecido a presença de colegas ligados a outras empresas, haverá alguma ideia do respectivo grau de adesão (oficial ou oficiosa…)? De qualquer modo, este I Congresso veio mostrar não apenas a vitalidade do sector mas até provar que, apesar do longo caminho a percorrer e das desconfianças que permanecem, é possível uma qualquer forma de organização. Um secretariado permanente (nem que seja apenas para preparar o próximo Congresso…) é já um passo.

— segunda nota menos positiva mas que também não dependerá apenas da organização. Houve algum eco na comunicação social? Haverá que de futuro associar algum “hapenning” algum anúncio extraordinário… para atrair os”media”.

Há certamente outros comentários sugeridos por este interessante Congresso mas que deixarei para outras Notas. Vou percebendo que neste meio da blogosfera, os textos longos ou muito estruturados, não são propriamente a forma mais adequada. Voltarei por isso ao assunto.

António Carlos Silva

Arqueologia Empresarial – II

Notas soltas sobre o 2º (e último) dia do 1º Congresso Português de Arqueologia Empresarial.

  • A conferência de um jovem expert da gestão empresarial, Leandro Pereira, com algumas informações úteis acerca dos normativos internacionais sobre a gestão de qualidade e a respectiva certificação. Mas, por que será que estes especialistas privilegiam sempre um tom que nos remete imediatamente para o de um pregador evangélico?
  • workshop “Credenciação, Regulação e Fiscalização na Arqueologia Portuguesa”, onde, como seria de esperar, avultou a presença de João Pedro Cunha Ribeiro, actual vice-presidente do IGESPAR com responsabilidades na área da Arqueologia. Como se provou no debate subsequente, as áreas mais polémicas da sua intervenção foram as da credenciação dos arqueólogos (defendeu a sua manutenção na tutela e a eventual adaptação dos ciclos de Bolonha aos graus de exigência dos trabalhos arqueológicos, com a possibilidade da licenciatura vir a ser associada a prospecções e acompanhamentos, o mestrado à escavação e o doutoramento aos projectos de investigação); da clarificação da relações entre o IGESPAR, nomeadamente ao nível das suas extensões territoriais, e as direcções-regionais de Cultura (com eventual descentralização para estas últimas de responsabilidades de fiscalização e acompanhamento); e da política de divulgação do Instituto (com a hipotética recuperação da Informação Arqueológica mas assumindo que a Revista Portuguesa de Arqueologia e a série Trabalhos de Arqueologia não são prioridade). Outros colaboradores deste blogue poderão desenvolver melhor o enfrentamento claro e, por vezes, duro que animou o debate. Retenho apenas um ponto que não houve oportunidade de discutir aí: o da relação entre o Instituto e as autarquias. Apelou-se a um maior envolvimento destas na divulgação dos trabalhos arqueológicos, principalmente junto das comunidades escolares locais, mas, digo eu, para isso, seria preciso que às autarquias chegasse informação muito mais consistente do que a simples comunicação de autorização. E não me parece que seja a via mais exequível para o fim em vista.
  • Naturalmente, a presença dos dois outros intervenientes no mesmo workshop (Vítor Cóias, do GECoRPA, e João Almeida, da EDIA) ficou algo secundarizada, embora o primeiro tenha apresentado um exemplo interessante de auto-qualificação das empresas, e o segundo reflexões importantes sobre a experiência da EDIA na relação com a Arqueologia empresarial.
  • worshop sobre experiências internacionais, com convidados do Reino Unido, de França e dos EUA, confrontou soluções assentes na auto-regulação dos arqueólogos, na intervenção da administração pública e no papel das empresas, respectivamente. São realidades perfeitamente contrastantes, mas que interessará conhecer melhor.

Jorge Raposo

Arqueologia empresarial

Breves notas soltas sobre o primeiro dia de trabalhos do 1º Congresso Português de Arqueologia Empresarial, que decorre hoje e amanhã na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

  • O desejo de João Pedro Cunha Ribeiro, em representação do IGESPAR, de poder contar com interlocutores representativos da Arqueologia empresarial, municipal e universitária. Pelo menos no que respeita aos municípios, sou bastante céptico do papel que se espera da Associação Nacional dos Municípios Portugueses.
  • Outro desejo, o de Miguel Lago, em representação da empresa ERA Arqueologia, de que este Congresso “faça História” no que à Arqueologia empresarial respeita. Assim seja, mas será o pós-Congresso a decidir o seu efeito prático.
  • A excelente comunicação de abertura de Felipe Criado Boado (CSIC, Espanha), que chamou a atenção para o papel decisivo da tutela na criação das condições para o desenvolvimento da Arqueologia, nomeadamente na sua vertente empresarial, e introduziu conceitos poucas vezes discutidos no nosso país (“Sociologia da inovação”, “Tecnociência”, “Arqueologia da Sociedade” versus“Arqueologia em Sociedade”, “EBC – Empresas de Base Cultural”, “transferência de conhecimento”, etc.). Espero que venha a ser publicada.
  • case study da Herdade dos Alfares, que serviu de mote para Miguel Almeida, da empresa Dryas Arqueologia, reflectir sobre a Arqueologia dita preventiva e apresentar um exemplo do que esta não deve ser.
  • Um debate onde se reconheceram incapacidades para superar défices de programação que não permitem incorporar práticas sustentadas de investigação na Arqueologia preventiva e de salvaguarda; se defendeu a vantagem de constituição de equipas de gestão territorial em centros históricos e núcleos urbanos antigos; e a necessidade de tratar as cidades históricas como verdadeiros sítios arqueológicos, salvaguardando a compatibilidade de metodologias e técnicas de registo e a gestão integrada da informação documental (e dos espólios, acrescento eu).
  • workshop sobre “Ética Empresarial em Arqueologia”, com um debate algo mitigado pela falta de tempo, que não permitiu apontar caminhos para transformar a ética e o rigor profissional em factores de vantagem competitiva.
  • A conferência final de Carlos Fabião, com um balanço da Arqueologia empresarial portuguesa da última década, que relacionou o seu forte crescimento essencialmente com a repercussão do “caso Côa”, em termos públicos e institucionais (criação do IPA e ratificação da Convenção de Malta); defendeu que a Arqueologia dita “preventiva” é, na sua maioria, “reactiva” e centrada na generalização de um princípio que devia ser excepção, o da “conservação pelo registo”; e salientou as desigualdades de uma actividade muito exposta e concentrada nos meios urbanos, com escassa participação no ordenamento do território e grave insuficiência de reconhecimento público, político e social. No debate subsequente, voltou a enfatizar-se que esta última tem como uma das causas próximas a deficiente comunicação dos arqueólogos para com públicos não especializados. Apetece dizer que há muito que este diagnóstico está feito, e até já se apontaram vários processos “terapêuticos”… falta simplesmente disponiblidade para começar a “tratar” o “paciente”!

Jorge Raposo

Interpretação da escrita do Sudoeste

Depois de uma versão já divulgada na Archport, o “Inimigo Público” da passada sexta-feira deu novo contributo para o conhecimento da denominada “escrita do sudoeste”, a partir de uma interpretação original(íssima!) de Mário Botequilha, sobre a epígrafe recentemente encontrada em Mesas do Castelinho.

Transcreve-se o texto sem mais comentários, seguido da “ficha de leitura” em boa hora publicada por este caderno do jornal “Público”.

Escrita do Sudoeste Interpretada Com o Tablet PC de Rui Santos

As escavações no povoado de Mesas do Castelinho, em Almodôvar, revelaram no mês passado a Pedra da Roseta da escrita do Sudoeste, uma espécie de Nuno Rogeiro em forma de calhau que permite interpretar inscrições com mais de 2500 anos, ou seja, anteriores a Manoel de Oliveira e Betty Grafstein. Os arqueólogos Carlos Fabião e Amílcar Guerra explicaram ao IP que “existem cerca de 90 estelas com inscrições em escrita do Sudoeste, a maior parte delas a servir de lancis nas rotundas. Até agora, não sabíamos bem o que estava lá escrito. Tanto podiam ser inscrições funerários dos tartéssicos, um reino mítico desta região da Península, como a marca de um pneu do expresso para Castro Verde”.

Mas, graças a este pedregulho giro, tudo mudou. “Na semana em que a encontrámos, estávamos a ver o Rui Santos a brincar com o tablet pc no ‘Tempo Extra’ e fez-se luz”, explicam Guerra e Fabião. “Percebemos que a escrita do Sudoeste não corre da direita para a esquerda, nem em espiral. Tem de ser lida na diagonal, como a ‘TV Guia’ ou o blogue de Santana Lopes. Eureka!” MB


Clique na imagem para ver melhor o resultado desta inesperada revelação.

 

Jorge Raposo

Espalhar a palavra do(s) Senhor(es e das Senhoras)

No encontro “Arqueologia e Autarquias” houve vários momentos em que o debate foi aceso, mesmo ao ponto de se recear a combustão espontânea da sala. Um deles foi a propósito da conferência de abertura do tema II – Arqueologia Preventiva e de Salvaguarda – na qual a nossa colega Isabel Ricardo apresentou o singular caso de Beja.

Singular porque a autarquia chamou a si a responsabilidade de regular a actividade arqueológica no município, com a produção de um Regulamento Municipal de Trabalhos Arqueológicos, actualmente em fase de discussão técnica pelos serviços da Câmara Municipal de Beja. Esta ideia fez estalar muitos comentários na sala do género: “temos algum Estado de Beja?” e alguns cépticos da administração autárquica abanavam a cabeça entre a estupefacção e a condescendência. Mas sei que também houve quem levou a ideia para casa e já esteja a vendê-la aos respectivos dirigentes. E quem falou com a direcção da APA a propor reuniões de trabalho para desenvolver este tipo de instrumento.

Devo desde já dizer que, no plano dos princípios, me oponho à ideia. Na ausência de uma auto-regulação da classe – modelo que claramente prefiro – , a regulação da actividade arqueológica deve continuar a ser uma atribuição do Estado Central, sendo arriscado pulverizá-la por 308 entidades tão distintas como são as autarquias portuguesas. No plano dos princípios ainda, essa regulação do Estado Central dever ser apoiada numa monitorização exemplar do território e dos agentes que nele actuam sobre o património arqueológico. E essa acção será assim o garante da consistência e coerência do “regime de protecção e valorização do património cultural, como realidade da maior relevância para a compreensão, permanência e construção da identidade nacional e para a democratização da cultura”.

Mas, infelizmente, a discussão nesta matéria não está ao nível dos princípios. Está ao nível da prática quotidiana de quem assiste ao desmantelamento de estruturas do Estado Central que – não omitindo muitas deficiências e lacunas – até há pouco ainda iam cumprindo os princípios da lei de bases do património cultural. E, no que ao património arqueológico diz respeito, a assistir, na primeira fila, a tudo o que se passa no território (e não só na capital do império) estão… os arqueólogos que trabalham nas autarquias.

E lançam mão do que podem para que a actividade arqueológica no território em que trabalham se faça da melhor maneira. Os que lançam, sim, não me esqueço que também há maus profissionais nas autarquias, mas não é desses que estamos a falar agora. Estamos a falar dos que esforçam e que nos mostraram experiências muito positivas durante os três dias do encontro. E a experiência de Beja é muito positiva.

A questão é saber se conseguimos multiplicar essa experiência por tantos municípios quanto os há, sem prejudicar a coerência e consistência da regulação da actividade a nível nacional. Diziam-me ao almoço no dia da conferência da Isabel Ricardo, que não. Que eu nem pensasse que conseguia uniformizar procedimentos onde isso nunca foi hábito, onde o regime de taxas e licenças é variável caso a caso, onde nunca a Associação Nacional de Municípios se conseguiu impor como entidade aglutinadora do que quer que fosse. Lá fui dizendo que compreendia todos os argumentos se os colocássemos ao nível politico, mas que se centrássemos a questão a nível técnico não via porque é que não era possível que nós, os técnicos, nos puséssemos de acordo e propuséssemos soluções similares para diferentes ratificações politicas. “O quê? Tipo andar de porta em porta a espalhar a palavra do Senhor e esperar que um dia o mundo fique melhor?”

Ora aí está. Eu que não sou nada religiosa não poderia arranjar melhor máxima. Vamos espalhar a palavra dos senhores e das senhoras que todos os dias fazem um bom trabalho nas autarquias portuguesas, e construir propostas tecnicamente fundamentadas e coerentes, porque alicerçadas na partilha de boas práticas. Basta esperar depois que 308 executivos assinem por baixo.

É um bocadinho ingénuo? Talvez. Mas, na ausência de uma actividade reguladora séria e digna desse nome por parte do Estado Central, é o melhor que consigo propor no caminho da auto-regulação baseada em critérios de qualidade, ética e deontologia profissional.

Maria José Almeida